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O SEQÜESTRO DO CÔNSUL DO JAPÃO

 

 

 

No início de 1970, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) já havia iniciado o treinamento de seus militantes para atuarem na guerrilha rural. A área de Registro, em São Paulo, estava em pleno funcionamento e sua existência e localização eram consideradas assuntos do mais alto sigilo.

Na manhã de 27 de fevereiro, Chizuo Ozava ("Mário Japa", "Fernando"), um dos mais importantes quadros da VPR e que havia acabado de fazer um curso de guerrilha, sofreu um acidente automobilístico na Estrada das Lágrimas, em São João Clímaco, São Paulo. Ao ser socorrido, foram encontradas armas e documentos subversivos dentro de seu carro, o que provocou sua prisão.

Carlos Lamarca e o comando da VPR, ao tomarem conhecimento do fato, ficaram apreensivos. "Mário Japa" já tinha estado na área em Registro, e poderia, ao ser interrogado, "abrir" a preparação guerrilheira da organização. Era necessário libertá-lo rapidamente, a fim de preservar o sigilo das operações no Vale do Ribeira.

A forma mais expedita seria o seqüestro de uma autoridade ou de um representante diplomático. O exemplo da ação bem sucedida desencadeada pela ALN e pelo MR-8 contra o embaixador norte-americano, em setembro de 1969, no Rio de Janeiro, pesou decisivamente na opção pelo seqüestro do cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi.

Entretanto, a VPR estava temporariamente debilitada. Seus quadros mais experientes estavam empenhados na área de treinamento do Vale do Ribeira ou fazendo os levantamentos das áreas de Goiás e do norte do Rio Grande do Sul, visando à implantação das "áreas estratégicas". Além dos desfalques, a organização perdera grande parte de seu arsenal no "estouro do aparelho" de Antônio Raimundo de Lucena ("Doutor", "Feirante") em Atibaia/SP, no dia 20 de fevereiro. Ao mesmo tempo, o vulto da ação e a inexistência de tempo para o necessário planejamento obrigou a VPR a buscar o auxílio de outras organizações comunistas. Foram contatadas, assim, o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e a Resistência Democrática (REDE).

Ladislas Dowbor ("Abelardo", "Jamil", "Nelson"), integrante do Comando Nacional da VPR, assumiu o comando da ação. A ele, integraram-se Devanir José de Carvalho ("Henrique", "Justino", "Heitor") - um dos cinco "irmãos Metralha" e principal dirigente do MRT - e Eduardo Collen Leite ("Bacuri", "Basílio"), organizador da REDE (no final de sua vida, nove meses depois, "Bacuri" apresentaria o "invejável" currículo de ter participado de dezenas de assaltos nos quais morreram sete pessoas).

Dos apressados reconhecimentos, participaram os militantes da VPR Liszt Benjamin Vieira ("Fred", "Bruno"), Mário de Freitas Gonçalves ("Eduardo", "Dudu", "Juca"), Miguel Varoni ("Edison"), Alcery Maria Gomes Silva ("Carmen", "Jane", "Olívia") e Joelson Crispim ("Marcos", "Mario", "Pedro", "Roberto"). Do MRT, participaram, além de Devanir, os militantes Plínio Petersen Pereira ("Gaúcho", "Omar", "Marcos", "Raul", "Alex", "Guilherme", "Velho") e José Rodrigues Ângelo Júnior ("Juraci", "Jurandir", "Bastos", "Heráclito").

No dia 11 de março de 1970, após terminar seus trabalhos no consulado, Nobuo Okuchi dirigia-se para a sua residência oficial na Rua Piauí, 874. Cerca das 1820h, quando o Oldsmobile dirigido por Hideaki Doi trafegava pela Rua Alagoas, passando pela aprazível e arborizada Praça Buenos Aires, um Volksvagen azul, aparentando realizar uma manobra descuidada, interpôs-se no caminho da viatura consular na esquina da Rua Bahia. Hideaki freou o carro e chegou a reclamar da barbeiragem. Okuchi, no banco traseiro do Oldsmobile, também não se preocupou quando viu um rapaz alto apanhar uma metralhadora junto ao volante do Volksvagen e dirigir-se para seu carro. Julgava ser uma verificação policial de rotina.

O planejamento tinha funcionado a contento. Lizst, parado na Praça Buenos Aires, tinha assinalado para Ladislas, na esquina das Ruas Bahia e Alagoas, a aproximação do carro do cônsul. Ladislas fez o sinal convencionado para Devanir, que arrancou com o Volks azul interpondo-se no caminho do Oldsmobile. Marco Antônio Lima Dourado ("Eloi", "Armando", "Orlando"), militante da VPR, era o rapaz alto que apanhara a metralhadora no carro do Devanir e, para surpresa de Okuchi, ameaçava o motorista Hideaki.

Plínio, que se encontrava junto a Ladislas, auxiliou Liszt a retirar o cônsul de dentro do carro, sob a ameaça de armas, e a conduzi-lo para um Volksvagen vermelho que estava estacionado na Rua Alagoas, do outro lado da esquina. Os militantes da VPR Oswaldo Soares ("Fanta", "Geraldo", "Julio", "Marcos", "Miguel") e Mário de Freitas Gonçalves, ao longo da Rua Bahia, faziam a segurança e interrompiam o trânsito nas proximidades da esquina. Okuchi foi colocado no banco traseiro, teve os olhos vendados com esparadrapo e forçado a colocar a cabeça sobre os joelhos de Liszt. Dirigido pelo "Bacuri", com Ladislas na posição do carona, o Volks vermelho partiu em alta velocidade em direção à Avenida Dr Arnaldo, seguido pelo azul na segurança.

"Bacuri" conduziu o carro para a Avenida Ceci, 1216, no bairro de Indianópolis, "aparelho" que ocupava com sua companheira Denise Peres Cispim ("Célia"), onde Okuchi ficou "guardado" até o dia quinze.

Nesse "aparelho", permaneceram vigiando o cônsul, até a sua liberação, "Bacuri", Denise, Ladislas e Liszt, estes dois últimos comunicando-se com o diplomata em Inglês, pois ele estava há pouco tempo no Brasil e não entendia bem o Português. Denise, além de cuidar das compras e da alimentação, foi a única pessoa a sair do local, a fim de levar os comunicados dos seqüestradores e as mensagens do cônsul. Iniciou fazendo contato com José Raimundo da Costa ("Moisés", "Carlos", "Gilberto"), militante da VPR, que tinha a tarefa de difundir o acontecimento através de notificações às estações de rádio e aos jornais. Tendo a imprensa estampado, no dia seguinte, uma foto de José Raimundo, como um dos prováveis seqüestradores, ele foi substituído na missão por Fernando Kolleritz ("Ivo", "Jordão", "Raimundo"), militante da REDE.

Os comunicados, escritos por Ladislas, exigiam a libertação de cinco presos políticos e a obtenção de asilo político no México ou em outro país que a isso se dispusesse. Sob a ameaça de dinamitar o esconderijo com o cônsul dentro, os seqüestradores exigiam o fim das atividades de busca da vítima e a "suspensão das violências contra os presos políticos". Todos os comunicados eram assinados pelo "Comando Lucena" da VPR, em alusão ao terrorista morto em Atibaia.

No Comunicado nº 4, os terroristas divulgaram a lista dos cinco presos a serem libertados. Damaris de Oliveira Lucena ("Dulce", "Rosa"), esposa do falecido Antônio Raimundo de Lucena - homenageado com a denominação do Comando, e seus três filhos menores encabeçavam a lista. Chizuo Ozava, o principal e verdadeiro objetivo da ação, era referido como "um nissei de nome de guerra Mário". A seguir, o rol apresentava o nome de "Toledo", como um elemento simpatizante que teria sido preso junto com Chizuo. Os terroristas estavam mal informados. Chizuo foi preso só, durante o desastre que sofreu. Otávio Ângelo ("Tião"), militante da ALN, e a madre Maurina Borges da Silveira, da FALN de Ribeirão Preto, completavam a lista.

Os terroristas, na realidade, tiveram dificuldades em elaborar a lista. Nem o nome verdadeiro de Chizuo eles sabiam. Após ser contestada a existência de "Toledo", o Comunicado nº 5 o substituía por Diógenes José Carvalho de Oliveira ("Luiz", "Leandro", "Leonardo", "Pedro"), da VPR, indicado como capaz de identificar o "nissei Mário".

Libertados os presos políticos e transportados em segurança para o México, teve início a operação de liberação de Nobuo Okuchi. No Comunicado nº 6 os terroristas exigiam a suspensão do policiamento e advertiam sobre as conseqüências trágicas para o cônsul caso fosse tentado algo contra eles.

No domingo, 15 de março, às 1600h, "Bacuri" retirou Liszt do "aparelho", deixando-o na Vila Mariana. Por volta das 1800h, Okuchi foi vendado e levado por Ladislas para o banco traseiro do Volks vermelho. "Bacuri" e Denise, após revistarem a casa e queimarem os documentos, trancaram a porta. O endereço estava sendo abandonado por questões de segurança.

Após rodarem algum tempo para certificarem-se de que não estavam sendo seguidos, deixaram o cônsul na Rua Arujá, atrás da Cervejaria Brahma. Ladislas saltou junto com o cônsul enquanto que "Bacuri" dava uma circulada pelas redondezas com o carro, para verificar se havia vestígio de polícia; caso não voltasse, Ladislas assassinaria o cônsul japonês. Para sorte de Nobuo Okuchi, o Volks vermelho retornou e recolheu Ladislas afastando-se do local. De táxi, o diplomata retornou à sua casa, cansado, mas com sua integridade física preservada.

Respeitados os compromissos assumidos e resgatado o diplomata nipônico, teve prosseguimento a luta diuturna contra o terror. Dos quinze participantes do seqüestro, oito foram presos: Ladislas Dowbor, Liszt Benjamin Vieira, Miguel Varoni, Oswaldo Soares, Fernando Kolleritz, Mario de Freitas Gonçalves, Marco Antonio Lima Dourado e José Rodrigues Ângelo Júnior. Cinco foram mortos em combate: Alcery Maria Gomes da Silva, Joelson Crispim, José Raimundo da Costa, Devanir José de Carvalho e Eduardo Collen Leite. Plínio Petersen Pereira, do MRT, e Denise Peres Crispim, da REDE, nunca foram presos.

F. Dumont

 

 

 

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