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MidiaSemMascara.org
Há bem poucos dias, em Porto Alegre,
a aplicabilidade da lei de anistia aos crimes de tortura foi discutida em um
programa de tevê. Durante os debates, foi levada a efeito pesquisa interativa. O
resultado de mais de um milhar de telefonemas mostrou 62% dos telespectadores
contrários à abertura dessa caixa de Pandora, como muito acertadamente vem sendo
designada a proposta em virtude do conjunto de males que pode desencadear. Eis
um bom tema para reflexão.
Pelo agravo que faz à dignidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus, a
tortura é algo hediondo, que repugna toda consciência bem formada. É crime
praticado por seres moralmente deformados, enfermos. No entanto, opor-se ao
desejo do ministro da Justiça, que busca uma forma de entregar ao Poder
Judiciário ou a algum Tribunal Internacional a investigação dos casos que tenham
ocorrido durante o regime militar, não significa aliar-se aos torturadores.
Significa permanecer aliado ao processo de pacificação política do país.
É bom lembrar. Já no fim dos anos 60
do século passado, exercida unilateralmente pela oposição, surgiu crescente
pressão política pela concessão de uma anistia “ampla, geral e irrestrita” que
tardaria uma década para ser conquistada. A lei dispondo sobre a matéria,
saudada pela nação inteira, foi sancionada em 28 de agosto de 1979, abrangendo
todos os crimes cometidos por motivação política, em qualquer banda do arco
ideológico, a partir de 9 de abril de 1964 (data do Ato Institucional nº. 1).
Segundo dados do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil - CPDOC - foram beneficiadas pela anistia 4650 pessoas, entre presos,
cassados, banidos, exilados ou destituídos dos seus empregos. Por essa via,
pacificou-se a nação e teve início a redemocratização.
A política não existe para promover conflitos, mas para os resolver. E a
violência é a substituta da política quando ela fracassa em relação a esse
objetivo. Foi o que aconteceu no Brasil nas lamentáveis circunstâncias em que se
desenrolaram os primeiros anos da década de 60. A anistia, por outro lado,
mostra que o inverso é verdadeiro: ela foi uma construção da política para a
efetiva redemocratização do Brasil. Buscar brechas na legislação nacional ou em
declarações conjuntas internacionais para investigar e punir crimes de tortura
implica reacender animosidades, salgar feridas e revogar a conciliação. Mesmo
que nada aconteça é pura imprudência com motivação escusa.
Se devessem ir aos tribunais os bandidos torturadores de vítimas que ainda vivem
entre nós portando a trágica memória de seu suplício, indago: não cometeram
outros crimes graves os assassinos de adversários ou (ainda pior) de inocentes
que nada tinham a ver com as animosidades da época? Aonde nos levaria esse
catálogo de barbaridades e respectivas ações regressivas? Onde iria parar a
própria anistia? Seqüestrar aviões, ameaçar de morte centenas de pessoas
seqüestradas, assaltar bancos, explodir bombas em aeroportos e instalações
militares matando inocentes, executar uma pessoa apenas por ser de nacionalidade
inglesa e outra por ser norte-americana, são crimes “políticos”?
Ninguém dentre os que atuaram na luta armada defendia a democracia. Os
verdadeiros defensores desta agiram no campo aberto da política, conquistando a
opinião pública para o restabelecimento do Estado Democrático de Direito. As
organizações esquerdistas que pegaram em armas não produziram um único documento
propondo a restauração do governo Goulart. Nem em sonhos! Para todos, a
democracia era uma fragilidade da burguesia e o modelo de sociedade desejado era
a ditadura do proletariado. Todos treinaram seus quadros em Cuba, China e URSS.
Esses três países, como a história mostrou, contabilizaram dezenas de milhões de
vítimas. Eram portadores de uma Caixa de Pandora infinitamente pior do que
aquela que agora pretendem destapar, contanto, é claro, que a tampa não abra
para o lado errado.