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É incrível como esse fator decisivo passa despercebido aos ilustres
analistas políticos da grande mídia e da academia, jumentos empalhados
que falam. Ele, por si só, explica muito da atual situação política
brasileira: de um lado, uma facção imbuída de forte identidade
histórica, sedimentada ao longo de quatro ou cinco gerações pelo
contínuo reexame e transmutação do legado recebido em instrumento de
ação presente, guiado por uma imagem de futuro sempre renovada e
adaptada às circunstâncias. De outro, um farelo de grupos surgidos do
nada, da noite para o dia, da mera aglomeração fortuita de indignações
ocasionais e interesses inconexos.
Uns, ignorando tudo do passado. Outros, ansiosos para renegá-lo, ao
menos em público, caprichando em demonstrações de bom-mocismo para
limpar-se da contaminação de um "ranço autoritário" – que nem sabem
exatamente o que possa ter sido, mas que, hipnotizados pelo discurso
esquerdista dominante, acreditam ser coisa invariavelmente feia.
Outros, empenhados em enternecer a esquerda para parecer moderninhos,
abdicando de toda identidade própria no front moral e cultural em troca
de concessões econômico-administrativas que, embora eles não o saibam, o
governo lhes faria igualmente sem isso, pois precisa delas para
financiar com o lucro capitalista a construção do poder socialista.
Outros ainda, enleados em criar belas formulações doutrinais em
juridiquês pomposo, que comovem a população como o cocô dos passarinhos
comove um busto de bronze.
Outros, por fim, são devotados a negar a realidade patente, apegando-se,
com mais de uma década de atraso, aos velhos slogans: "A Guerra Fria
acabou", "Lula mudou" e similares, que já eram estúpidos quando lançados
pela primeira vez e que só serviram para proteger, sob um manto de
silêncio cúmplice, o crescimento do Foro de São Paulo e seu poder
continental.
Praticamente todos apostam na força mágica das eleições, como se o
afluxo de eleitores às urnas durante algumas horas, de quatro em quatro
anos, tivesse mais força do que a ação constante, diuturna, incansável,
da militância organizada; como se já não soubessem, pelo exemplo
de Collor, que a simples eleição de um presidente, sem tropas de
militantes para apoiá-lo nas ruas, não passa de um convite ao
impeachment ou, no mínimo, à paralisação do governo sob o metralhar
incessante das acusações, dos escândalos e dos inquéritos.
Se algo a história jamais desmentiu, é esta regra elementar: quem dura
mais, vence. Dessa diferença essencial decorre uma segunda: a esquerda
tem objetivos de longo prazo pelos quais seus combatentes dariam a vida
e que em última instância constituem ali o critério de todos os valores,
de todas as decisões – ao passo que a direita, sem outro objetivo senão
a sobrevivência imediata, se compõe e decompõe ao sabor de impressões de
momento, sem ordem nem rumo, bem como de simpatias e antipatias
voláteis, de uma futilidade atroz.
E da segunda diferença decorre uma terceira. Na esquerda, os
intelectuais têm uma função orgânica, são os formuladores de estratégias
gerais que os políticos seguem com uma constância admirável.
Já a direita quer intelectuais apenas como propagandistas de idéias
prontas – função na qual os cérebros mais fracos e rotineiros são
obviamente preferidos aos pujantes e criadores –, com o agravante de
que aquelas ideias não são nem ideias, são apenas os preconceitos,
ilusões e regras de bom-tom da classe economicamente privilegiada, cuja
máxima aspiração é amolecer o coração da esquerda, na vã esperança de
que, bem afagada, ela a deixará em paz.
Quando o sr. Presidente da República diz que essa gente não tem a mínima
perspectiva de poder, está sendo até generoso: a direita brasileira,
como conjunto, não tem sequer a mais vaga idéia do que seja a luta
política.
Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia