O GLOBO
O presidente Lula defendeu ontem, de novo, o programa nuclear
iraniano. A defesa do Irã é tão gratuita que causa espanto. Por que
defender o indefensável? Ele disse que os Estados Unidos e a Rússia
não têm autoridade para criticar o Irã. Não foram apenas esses dois
países que condenaram o programa iraniano. O mundo o condenou porque
ele não tem nenhuma cara de ser pacífico.
Parte do raciocínio faz sentido, parte não faz.
Quando defende o desarmamento nuclear de todos, Lula representa a
maioria do povo brasileiro, a quem nunca interessou o
desenvolvimento de armas nucleares.
Mas não faz sentido é a defesa, extemporânea e gratuita, de um
governo que se isola da comunidade internacional, que escondeu parte
das suas instalações nucleares, que mentiu para a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA) e que admite que está
enriquecendo urânio além do percentual necessário para produzir
energia.
O que o Brasil ganha defendendo um país que na semana passada foi
condenado na Agência Internacional de Energia Atômica? China e
Rússia votaram contra o aliado. O Brasil se absteve. Nada pior do
que a abstenção num caso que merece uma posição clara.
Após sete anos de improvisos catastróficos em viagens
internacionais, o presidente Lula ainda não entendeu que ele, quando
está representando o Brasil, não fala por si, mas pela nação
inteira. Portanto, tem que expressar o sentimento coletivo e não
seus impulsos.
Não há qualquer clamor no Brasil de defesa do Irã, muito menos do
governo Ahmadinejad. Pelo contrário.
A esdrúxula negativa de fatos históricos como o holocausto torna o
governante iraniano definitivamente divorciado do pensamento da
maioria dos brasileiros. Quando as urnas iranianas exalavam ainda o
mau cheiro das fraudes, o Brasil foi o primeiro país a dizer que a
eleição dele foi legítima. Até o Conselho de Guardiões do Irã
admitiu que houve em cinquenta cidades do país mais votos que
eleitores. A repressão ao movimento popular que pedia eleições
limpas matou cidadãos nas ruas, como a jovem Neda.
Naquele momento de indignação em todo o mundo com o governo
Ahmadinejad, o Brasil se apressou a dar o aval a eleições
fraudulentas.
Com Honduras, ocorreu o oposto: o governo brasileiro condenou as
eleições antes mesmo que elas tivessem acontecido. E já avisou que
não reconheceria o novo governo.
No caso de Honduras e no caso do Irã, o que a política externa perde
é o tom. Ser a favor do desarmamento nuclear o Brasil sempre foi.
Mas sempre foi também contra a proliferação nuclear. E o Irã neste
momento significa, na opinião das maiores autoridades no assunto
reunidos na AIEA, o risco de proliferação nuclear. O mais estranho
da declaração de Lula é que ela veio depois de ter sido divulgado um
comunicado conjunto com a chanceler alemã Angela Merkel, admoestando
o Irã a “responder positivamente” e “cooperar inteiramente” com a
AIEA e a ONU. Isso sim é o correto e tira o Irã do isolamento.
No caso de Honduras, a posição defendida pelo presidente Lula, seu
secretário de Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, e seu
ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tem a mesma
dubiedade. No princípio, foi no tom exato, depois, desafinou. Numa
região devastada por golpes de Estado, o Brasil condenou o golpe e a
deportação de Manuel Zelaya, no que fez bem. A posição brasileira
começou a sair do tom quando deixou de ser a defesa dos princípios
democráticos para ser uma militância zelaysta.
O Brasil condenou uma eleição, a priori, e avalizou outra, quando a
população ainda estava na rua indignada com as fraudes.
No mensalão do DEM em Brasília, o presidente Lula só encontrou a
palavra “deplorável” no segundo dia.
No primeiro, disse: “as imagens não falam por si”. O presidente da
República não pode préjulgar. Mas não condenar antecipadamente não é
o mesmo que absolver.
Tudo fala por si no escândalo de Brasília: as imagens, os diálogos
gravados, as conversas telefônicas, as desculpas improvisadas e
mutantes e a hesitação do Democratas. “Aquela despesa mensal com
político sua hoje está em quanto?”, disse o governador de Brasília,
José Roberto Arruda.
Muita coisa está fora da ordem nessa frase além do pronome
possessivo.
O presidente Lula poderia não ter se manifestado. Seria melhor. Mas
sua forma de lidar com a imprensa é autoritária como nos governos
militares. Naquela época os generais não davam entrevistas
coletivas. Eles falavam quando eram abordados em viagens
internacionais.
Ao seguir esse modelo, Lula acaba se aborrecendo quando perguntado
por essa “coisinha”. Preferia que perguntassem sobre grandes
questões internacionais.
Mas, no dia seguinte, brindou seus interlocutores com a defesa
dispensável do programa nuclear iraniano.
No Brasil, nunca se viu um movimento de opinião pública a favor do
programa nuclear iraniano. Isso não é uma questão por aqui. O que
incomoda, machuca, confunde o país neste momento são estas
“coisinhas” deploráveis.
Lula quando fala certas coisas deveria esclarecer que fala por si