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BRIGADEIRO BURNIER - Obtuário

Em 21 de Junho de 2000, o "Jornal do Brasil" publicou o seguinte obituário:
    
"Oficial da linha dura"
    
O Brigadeiro João Paulo Burnier morreu no último dia 13 - a causa não foi informada pelos parentes, que também não revelaram o local do enterro. Oficial da Aeronáutica, durante a ditadura, era identificado como da linha-dura. Em 1959, chefiou a revolta de Aragarças, para derrubar o presidente Juscelino Kubitschek, mas fracassou. Em 1963, estudou na Escola das Américas, no Panamá, mantida pelo Exército dos Estados Unidos, fazendo cursos para a instalação do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA), que depois chefiou. Em 1964, apoiou o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart. Em 1968, foi chefe da seção de informações do gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza e Melo, e depois chefe do gabinete. Nesse cargo, ordenou ao capitão Sérgio Miranda de Carvalho que utilizasse o Para-Sar, para eliminar opositores da ditadura. O capitão se negou e foi reformado. Em 1970, passou a comandar a 3ª Zona Aérea, no Rio, e, em 1971, com a morte sob tortura de Stuart Angel Jones, na Base Aérea do Galeão, foi exonerado. Era casado e tinha seis filhos."
    
A esse respeito, escreveu o Coronel Gustavo Borges:
    
"Na edição de 21/06/00, o JB publicou um "obituário" anônimo, disfarçado com moldura de "matéria paga", repetindo as calúnias de sempre. Burnier NÃO "ordenou ao capitão Sérgio Miranda de Carvalho que utilizasse o Para-Sar, para eliminar opositores da ditadura". O "Sérgio Macaco" confessou sua calúnia, em manuscrito cujas letras e assinatura são inconfundíveis. Forjou as fantásticas histórias da tortura de Stuart Angel Jones, da explosão do gasômetro e da venda da Amazônia a um general norte-americano.
    
Incrível, mas há quem acredite! "Caluniai, caluniai, sempre restará alguma coisa ..." Foi uma agressão covarde, por atingir um homem morto, sob o disfarce de obituário".
 
 - UM TIPO INESQUECÍVEL
 
No ano de 1961, em Natal/RN, eu servia no 5º Grupo de Aviação, equipado com aeronaves B-26, e exercia a função de Oficial de Material do 1º/5º GAv. Naquela época estávamos enfrentando problemas, uma vez que todas as aeronaves necessitavam fazer revisão IRAN (4º Escalão) e o estado-maior da Aeronáutica havia tomado a decisão de que a revisão seria feita em Natal, pelo 1º/5º GAv e pelo Parque de Material Aeronáutico de Recife, que era o Parque apropriado.

 
Foi um trabalho árduo e as aeronaves, enquanto aguardavam a vez de serem revisionadas, tinham de ser submetidas ao vôo de manutenção para evitar que fossem estocadas.
    
Não me lembro bem da data, mas sei que foi na semana em que os soviéticos colocaram em órbita o Vostok II. Certo dia, pela manhã, estacionou em frente à Sala de Tráfego um Beech C-45 e dele desceu um Tenente-Coronel Aviador.
    
Este chamou o Oficial de Operações e mandou que ele reunisse todos os Oficiais na Sala do Comandante. A ordem cumprida e, pouco tempo depois, ele estava diante de toda a oficialidade.
    
Começou dizendo que era o Tenente-Coronel Aviador João Paulo Moreira Burnier e que naquele momento, por ordem do Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, estava assumindo o comando da Base Aérea de Natal. Não tinha em seu poder nenhum ato formal a não ser a sua palavra. E não houve quem a rejeitasse.
    
Logo em seguida, continuou: "Ordem à Base! Quero que amanhã, às 7 horas da manhã, a Companhia de Infantaria de Guarda e o 2º/5º GAv estejam operando na Base Oeste. Para isso, preciso de um rancho organizado para apoiar as operações, a partir de amanhã".
    
É preciso esclarecer que em Natal existiam duas Bases. A construída pelos norte-americanos no tempo da guerra, que estava funcionando, e a construída pelos brasileiros (Base Oeste), que estava sem destinação.
    
Todos os que ali estavam ficaram perplexos com essa ordem. Alguns até comentaram: "Esse cara é doido".
    
Houve muitas reclamações, mas a ordem foi cumprida. Às 7 horas da manhã do dia seguinte, a Base Oeste estava operando.
    
Naquela noite, praticamente não dormi, assistindo o deslocamento das aeronaves e da manutenção para a Base Oeste. Eram mais ou menos 23 horas quando o comandante aproximou-se de mim e ficou conversando. Ele sabia perfeitamente quem eu era, embora esse fosse o primeiro contato entre nós. De tempos em tempos o Vostok II descrevia sua órbita naquele céu estrelado, fato que me marcou.
    
Muitos anos depois fui saber o motivo daquela ordem. O governador do Rio Grande do Norte, Aloisio Alves, estava reivindicando a posse da Base Oeste, a fim de transformá-la na Cidade dos Meninos. A partir da mudança, a reivindicação perdeu conteúdo, pois a Base já não estava sem destinação. Estava operando.
    
O Tenente-Coronel Burnier tinha um temperamento explosivo, decisões rápidas e sabia perfeitamente definir seus objetivos. Trabalhar com ele, porém, não era fácil. Normalmente, enchia de assessores a Sala de Comando e passava a dar ordens simultâneas e, nesse caso, sempre havia alguém que não as entendia. Vinha, então, aquela famosa bronca e sempre alguém era preso para, logo depois, quando ele se acalmasse, ser solto.
    
Naquela época, eu era 1º Tenente e observei que o TC Burnier respeitava muito aqueles que não se limitavam a aceitar simplesmente suas ordens e faziam ponderações, antes de cumpri-las.
    
Lembro-me de uma vez que fui a Recife buscar material de suprimento e quando retornei, lá pelas 17 horas, o Cmt do Esquadrão chamou-me para comunicar que, naquela manhã, o TC Burnier tinha estado lá e mudado todo o sistema de manutenção.
    
O sangue subiu e falei ao Cmt de Esquadrão que iria para casa e só retornaria quando houvesse revisão da decisão do TC. Soube que o TC esperneou, quis prender-me, mas nada fez porque sabia que eu era correto no meu serviço e fiel à Organização.
    
Dois dias depois, o Cmt do Esquadrão mandou chamar-me, dizendo-me para prosseguir meu trabalho como achasse melhor.
    
Por trás do seu tipo, aparentemente atropelado, havia uma grande criatura humana que fazia questão de conhecer os problemas sociais de seus comandados, principalmente dos militares subalternos. Nunca deixou de apoiar as famílias dos seus comandados quando estavam fora, em missões prolongadas. E quantos foram atendidos gratuitamente no Instituto de Oftalmologia Penido Burnier, em Campinas, que pertencia a parente seu?
    
Eu mesmo contrai uma dívida de gratidão com ele, que nunca pude pagar. No final de 1961, estava de férias em Fortaleza, quando, certa noite, recebi uma ligação telefônica de um familiar dizendo que a minha mãe estava em estado de saúde desesperador, no Rio de Janeiro.
    
Não pensei duas vezes. Fui à Sala de Tráfego da Base Aérea de Fortaleza e expedi um radiograma urgente para o TC Burnier, notificando o problema e solicitando um transporte até o Rio de Janeiro. Isso por volta das 23 horas.
    
Às 4 horas, alguém da Sala de Tráfego, em Fortaleza, comunicou-me que às 4:30 iria pousar um avião C-41 para levar-me a Natal, onde estava à minha disposição uma passagem de cortesia pelo Loyde Aéreo e, caso eu não pudesse embarcar, o piloto do C-41 estava autorizado a levar-me ao Rio de Janeiro.
    
Pergunto: que comandante faria isso por um Tenente, ainda mais altas horas da noite? Foi essa dívida que nunca consegui saldar.
    
Muitos outros fatos ocorreram sob seu comando e todos passamos a admirá-lo por suas atitudes nobres, tanto no campo militar como no social.
    
Sua carreira militar é rica em episódios que sempre o definiram como um patriota e nacionalista, tendo participado de inúmeros eventos que fazem parte da História do Brasil.
    
Sua carreira, como Brigadeiro do Ar, foi cortada abruptamente por divergências políticas com grupos que almejavam o Poder.
    
A última vez que o vi foi no Clube da Aeronáutica, em Brasília, nos anos 80, em companhia de uma de suas filhas.
    
O Brigadeiro João Paulo Burnier fazia parte de um grupo de Oficiais da Aeronáutica que marcaram época no cenário político nacional.
    
Os tempos mudaram e ele deixa saudades. Oficiais de sua estirpe não existem mais.
 
Jonas Alves Corrêa, Cel Av RR

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