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TRABALHO ESCRAVO. (Republicação) // Jacy de Souza Mendonça

Em 1973, participei ativamente da formação da Fazenda Vale do Rio Cristalino no município de Santana do Araguaia, no sul do Pará. Acompanhei o Presidente Sauer na visita ao Ministro do Interior, Rangel Reis, oportunidade em que este nos informou que o governo tinha interesse no desenvolvimento da Amazônia de forma empresarial e contava para isso com a colaboração da Volkswagen. Foi praticamente uma ordem revestida de cortesia. A compensação parcial do investimento através do imposto de renda era mínima (e foi desaparecendo rapidamente). Integrei depois o grupo que efetuou a compra das terras e conduzi o processo para aprovação do projeto na SUDAM.
Sauer apaixonou-se pela ideia e para concretizá-la buscou pareceres técnicos de profissionais nacionais e estrangeiros. Não foi fácil, já no início, que obrigava a abertura de uma clareira na mata. Os trabalhadores eram convidados em aldeias às vezes bem distantes. Os que aceitavam, exigiam sempre pagamento antecipado de parte dos salários, para deixar com a família enquanto não tinham condições de levá-la. Moravam, nos primeiros dias, como era hábito na região, em barracas levantadas com folhas de bananeira.
Em pouco tempo surgiu um local lindo, aprazível. Para os empregados foi construída uma vila com casas de alvenaria, de três dormitórios, água e luz, incluindo um terreno privativo para criarem galinhas, porcos, animais domésticos e formar uma horta e um pomar. Foram construídos 155 km de estradas, inúmeras pontes, açudes e uma pista de pouso para aviões. Na entrada da Fazenda havia um hospital, com o atendimento fundamental prestado por médicos, dentistas e enfermeiros. Em caso de doença grave ou acidente, o avião da companhia levava o paciente aos hospitais de cidades próximas. Instalou-se uma serraria e uma oficina mecânica. Havia uma bela casa de hóspedes e uma encantadora escola. Inesquecível a comovente inauguração desta, com crianças que costumavam andar nuas, trajando agora uniformes, usando sapatos pela primeira vez na vida e cantando o Hino Nacional, enquanto o Ministro içava a bandeira brasileira ao som das araras e tucanos que cortavam os céus.
Todos tinham Carteira do Trabalho assinada, contribuíam para o INSS e seus direitos trabalhistas eram rigorosamente respeitados, inclusive o recolhimento do FGTS. Uma vez ao mês um fiscal do Ministério do Trabalho ia até para examinar as condições de trabalho, atualizar as Carteiras de Trabalho e fornecer outras para os novos empregados.
Não tenho aqui condições de fornecer mais detalhes dessa linda e monumental experiência, mas assim cresceu a Fazenda, chegando a um plantel de sessenta mil cabeças de gado, controlado por computador (pela primeira vez no Brasil), fazendo toda sorte de experiências com animais, frutas e legumes.
De repente, começaram a circular em páginas da imprensa de todo o País, sob inspiração de um Bispo local, que lá havia trabalho escravo, o que justificava alegando que não havia meios de transporte para os empregados saírem da fazenda (e, de fato, não havia navio, trem ou ônibus, razão pela qual eles precisavam aproveitar carona quando um caminhão saía de lá); dizia também que os trabalhadores eram obrigados a comprar tudo o que necessitassem no armazém da Fazenda (realmente, lá não havia shopping, por isso foi instalado um armazém onde estavam à disposição os produtos necessários à vida deles).
A intensidade da acusação de trabalho escravo chegou a tal ponto que irritou a matriz alemã e ela decidiu fechar a Fazenda, abandonando tudo o que investira no projeto. Todos os trabalhadores voltaram a viver em malocas, sem hospital nem escola, sem trabalho (com ou sem Carteira do Trabalho) nem salário... as crianças voltaram a andar nuas, sem sapatos nem escola...
Registre-se o fato, que dispensa comentários, neste momento em que o assunto trabalho escravo volta à pauta.

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