RECORDANDO
A HISTÓRIA
O
SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR DOS EUA
Assaltos
a bancos e estabelecimentos comerciais, ataques a sentinelas, roubos de armas e
explosivos, assassinatos encobertos sob o eufemismo de "justiçamentos", a
violência estarrecia porém perdera o ineditismo. A repetição sistemática das ações
tirava-lhes o impacto do fato novo gerador de curiosidade. Era necessário imaginar algo
que mexesse com a opinião pública.
Com
esse pensamento, a direção da Dissidência do PCB na Guanabara (DI/GB) imaginou, em
meados de 1969, o seqüestro de um representante diplomático. A ação teria a finalidade
de liberar companheiros presos e de chamar a atenção da opinião pública nacional e
internacional para a audácia e a determinação do movimento revolucionário comunista no
Brasil.
O
alvo mais significativo seria o embaixador dos Estados Unidos da América, tachado como
representante e defensor dos "interesses imperialistas norte-americanos em nosso
País".
O
pensamento inicial da DI/GB, em consonância com sua origem universitária, era libertar o
seu militante e líder secundarista, Vladimir Gracindo Soares Palmeira
("Marcos"), além dos também dirigentes do movimento estudantil, José Dirceu
de Oliveira e Silva ("Daniel") - militante da Ação Libertadora Nacional (ALN),
e Luiz Gonzaga Travassos da Rosa, militante da Ação Popular (AP)
A
idéia do seqüestro partiu de Franklin de Souza Martins ("Waldir",
"Francisco", "Miguel", "Rogério", "Comprido",
"Grande", "Nilson", "Lula") - que havia estado preso junto
com os demais líderes até o final de 1968, e foi logo apoiada por Cid de Queiroz
Benjamin ("Billy", "Vitor", "Willy", "Miro",
"Levi"), integrante da Frente de Trabalho Armado (FTA) da DI/GB.
A
direção da DI/GB, liderada por Franklin, concluiu, após os levantamentos preliminares,
que a falta de experiência de seus quadros poderia dificultar o sucesso da ação. Seria
necessário o apoio de uma equipe mais experiente. A ALN já havia conseguido notoriedade
através da intensificação de suas ações armadas, principalmente em São Paulo, e pela
constante divulgação de textos de Carlos Marighella, incentivando todo e qualquer tipo
de "violência revolucionária". A ALN afigurava-se como o apoio mais confiável
e competente.
Em
julho de 1969, Claudio Torres da Silva ("Pedro", "Geraldo"), membro da
FTA, devidamente autorizado pela direção da DI/GB, foi fazer contato com Joaquim Câmara
Ferreira ("Toledo", "Velho", "Valter", "Azevedo"),
dirigente nº 2 da ALN. "Toledo", aplicando a autonomia revolucionária
permitida pelos princípios da organização, aprovou a ação e, sem o conhecimento de
Marighella, prometeu o apoio da ALN à empreitada da DI/GB.
Durante
os preparativos, foi alvo de especial atenção a escolha da data da ação. Havia duas
opções: a semana de 7 de setembro ou o 8 de outubro. Oito de outubro, significativo pela
lembrança da "queda" de Che Guevara na Bolívia, foi preterido pela semana de 7
de setembro em função da urgência em libertar os presos políticos e da intenção de
desmoralizar as autoridades e esvaziar as comemorações da Semana da Pátria.
No
final de agosto, Cid de Queiroz Benjamin tornou a fazer contato com "Toledo", em
São Paulo, pormenorizando detalhes da ação de seqüestro. Da reunião, participou
Virgílio Gomes da Silva ("Breno", "Jonas", "Borges"),
coordenador do Grupo Tático Armado (GTA) da ALN, que seria o comandante da ação.
"Breno", codinome utilizado por Virgílio só para o seqüestro, selecionou os
também militantes da ALN, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto ("Francisco",
"Sergio", "Benê", "Mauro") e Paulo de Tarso Venceslau
("Rodrigo", "Geraldo", "Machado", "Beto"), para
participarem diretamente da ação. "Toledo", pela direção da ALN,
deslocar-se-ia para o Rio de Janeiro a fim de coordenar as ações e orientar os contatos
com as autoridades.
Os
levantamentos, reconhecimentos e providências logísticas da ação, todas sob a
responsabilidade da DI/GB, já haviam sido tomadas.
Fernando
Paulo Nagle Gabeira ("Mateus", "Honório", "Bento",
"João", "Ignácio"), jornalista do "Jornal do Brasil" e
responsável pelo setor de imprensa da DI/GB, havia alugado em 5 de agosto, por meio de
sua amante Helena Bocayuva Khair (nome de solteira Helena Simões Bocayuva Cunha), a casa
nº 1026 da Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido, perto de Santa Teresa. O casarão,
além de servir ao setor de imprensa, imprimindo o jornaleco "Resistência",
seria utilizado como local de cativeiro do embaixador.
Franklin,
Cláudio Torres e Cid levantaram o itinerário do carro do embaixador que, invariavelmente
e sem qualquer segurança, transitava de sua residência oficial - um palacete da Rua São
Clemente, em Botafogo - para a embaixada, localizada na Avenida Presidente Wilson, no
Centro da então Guanabara. O itinerário, sempre o mesmo, iniciava-se na Rua São
Clemente, passava pela tranqüila e descongestionada Rua Marques e atingia a Rua
Voluntários da Pátria. A Rua Marques, pelas suas características, foi a escolhida para
ser o local da abordagem do carro do embaixador.
Vera
Sílvia Araújo de Magalhães ("Marta", "Andréia",
"Carmen", "Ângela", "Dadá"), militante da FTA da DI/GB,
foi a encarregada de levantar a personalidade e os horários de saída do embaixador.
Aproveitando-se de sua aparência física atraente e à semelhança de ações anteriores,
apresentou-se na casa do embaixador à procura de emprego como doméstica. Atendida pelo
encarregado da segurança, Antonio Jamir, "Marta" envolveu-o emocionalmente,
conseguindo os dados necessários à complementação do planejamento. "Marta"
não se constrangia em utilizar o sexo como "instrumento de ação
revolucionária".
Acertados
os detalhes, foi marcada a data de 4 de setembro de 1969 para a ação de seqüestro.
Mesmo o derrame cerebral sofrido pelo presidente Costa e Silva e a conseqüente
assunção, em 31 de agosto, de uma junta governamental integrada pelos três ministros
militares não foram um fato político suficiente para alterar a data prevista.
Em
2 de setembro, Paulo de Tarso Venceslau conduziu para a Guanabara, em seu carro
particular, os terroristas Virgílio Gomes da Silva e Manoel Cyrillo de Oliveira Netto. Ao
chegarem, foram recebidos por Cid e Cláudio que os conduziram "fechados" para
um "aparelho" no bairro do Flamengo, perto do Hotel dos Ingleses. Virgílio,
cioso de suas prerrogativas de comandante, iniciou, junto com os outros dois militantes da
ALN, os reconhecimentos dos locais e itinerários ainda nesse dia, complementando-os no
dia seguinte.
Em
3 de setembro, completado o planejamento, Paulo de Tarso comunicou-se com
"Toledo", em São Paulo, por telefone, informando: "Negócio fechado, mande
a mercadoria". A senha, enviada para a residência do industrial Jacques Emile
Frederic Breyton - integrante da rede de apoio da ALN -, significava que a ação estava
preparada, seria desencadeada e que "Toledo" poderia deslocar-se para a
Guanabara. Nesse mesmo dia, de avião, "Toledo" chegou no Rio de Janeiro, indo
alojar-se no "aparelho" da Rua Petrópolis, onde passou a relacionar os nomes
dos comunistas presos que deveriam ser trocados pelo embaixador.
Redigido
por Franklin e Gabeira e aprovado por "Toledo", ficou pronto o panfleto que
seria deixado no carro do embaixador após a ação. Esse manifesto inseria o seqüestro
dentro do contexto das demais ações terroristas, classificando-o como um "ato
revolucionário". Fazia propaganda "antiimperialista", acusando o
embaixador de representante dos "interesses espoliativos norte-americanos no
Brasil". Exigia a libertação de quinze presos políticos - a serem anunciados
oportunamente - que deveriam ser conduzidos para a Argélia, Chile ou México, onde lhes
deveria ser concedido asilo político. A outra exigência era "a publicação e
leitura desta mensagem completa nos principais jornais e estações de rádio e televisão
de todo o país". Finalizando o manifesto, um ultimato concedia 48 horas para o
governo aceitar as condições impostas e mais 24 horas para que os presos fossem
transportados para o exterior em segurança; o não atendimento das condições
acarretaria o assassinato - segundo eles, o
"justiçamento" - do embaixador. O manifesto era assinado pela ALN e pelo
Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), nome adotado pela DI/GB a partir de então.
A
manhã do dia 4 de setembro de 1969, uma quinta-feira de sol, foi tensa para os
executantes diretos do seqüestro. Com a antecedência necessária foi tomado o
dispositivo para a ação.
Na
esquina das ruas São Clemente e Marques ficou estacionado um Volks bege com João Lopes
Salgado ("Dino", "Murilo", "Xisto", "Ribeiro",
"Pagé", "Fio", "Colombo", "Tomé",
"Gabriel", "Rivo", "Caramujo", "Zé Mineiro") e
Vera Silvia. O motorista era José Sebastião Rios de Moura ("Anibal",
"Baixinho"), que se postou em pé na esquina, para anunciar a aproximação do
carro do embaixador.
Num
Volks azul, com chapa de São Paulo, foram transportados Franklin, Cid e Virgílio, o qual
saltou na Rua Marques pois, de acordo com o planejamento, seria um dos que entrariam no
carro do embaixador durante a abordagem. Esse Volks azul, estacionado na Rua Marques,
deveria realizar uma manobra - aparentando movimento normal de trânsito - que obrigasse o
carro do diplomata a parar.
Cláudio
Torres, Paulo de Tarso e Manoel Cyrillo chegaram num Volks vermelho, com chapa do
Espírito Santo. Os três abordariam a pé, junto com Virgílio, o carro do embaixador.
Esse Volks estacionou na Rua Marques, no lado oposto ao Volks azul, a fim de estreitar a
rua e de impedir a manobra da viatura diplomática.
Na
Rua Caio de Melo Franco, no Jardim Botânico, já havia sido estacionada por Sergio Rubens
de Araújo Torres ("Rui", "Gusmão", "Júlio",
"Vicente", "Jorge", "Ferreira", "Alfredo",
"Pepe"), membro da FTA da DI/GB, a Kombi verde que serviria para o transporte do
embaixador.
Tudo
pronto. O tempo passava, a tensão aumentava mas o Cadillac do embaixador não aparecia.
Por
volta das 1100h, o esquema foi desfeito. Apurara-se que o embaixador, contrariando a
rotina, havia saído de casa bem mais cedo. Restava a alternativa do retorno do diplomata
para a embaixada, após o almoço em sua residência.
Às
1300h, Virgílio determinou que o dispositivo fosse retomado. Apenas o Volks vermelho não
precisou ser utilizado, pois havia vários outros carros estacionados, estreitando
naturalmente a rua. O Volks foi abandonado na Rua Capistrano de Abreu.
Pronto
o dispositivo, surgiu na Rua Marques um carro semelhante ao do embaixador norte-americano.
Os olhares ansiosos convergiram para o José Sebastião que, na esquina, não deu nenhum
sinal. Era o carro do embaixador português.
Finalmente,
às 1400h, José Sebastião fez o sinal convencionado. Surgiu na esquina da Rua Marques o
imponente Cadillac negro chapa CD-3, dirigido por Custódio Abel da Silva. Em marcha
moderada, vinha aproximando-se do local da armadilha. No banco traseiro, Charles Burke
Elbrick, 61 anos, absorto, refletia sobre os problemas rotineiros que o aguardavam na
embaixada. A cerca de 20 metros, um Volks azul deixava lentamente o acostamento e fazia
uma manobra em "U". O motorista Custódio freou para aguardar que a rua ficasse
desimpedida.
Repentinamente,
a calma da tarde foi interrompida. Quase que simultaneamente, as quatro portas do Cadillac
foram abertas (surpreendentemente não estavam trancadas) e quatro terroristas armados
adentraram no carro. Virgílio entrou pela porta traseira direita, enquanto que Manoel
Cyrillo entrava pela traseira esquerda, ladeando o surpreso embaixador. Elbrick, aturdido
e sem entender o que estava ocorrendo, foi forçado a colocar-se no assoalho do carro com
as mãos na nuca, enquanto que Virgílio anunciava: "Somos revolucionários
brasileiros". Pela porta do motorista, entrou Cláudio Torres que, empurrando
Custódio e tomando-lhe o boné, colocou-se ao volante. Pela porta dianteira direita
entrou Paulo de Tarso, ameaçando Custódio com sua arma.
Claudio
Torres arrancou rapidamente com o carro, após Franklin manobrar o Volks, desimpedindo a
rua.
O
Cadillac, ao arrancar, foi seguido pelo Volks azul que fazia a cobertura na retaguarda. Ao
retornar à Rua São Clemente, seguindo para a região de transbordo, o carro diplomático
passou a contar com uma cobertura à frente, proporcionada pelo Volks bege, dirigido pelo
José Sebastião.
Após
rodar por alguns minutos, o Cadillac atingiu a região de transbordo, uma pequena rua sem
saída, no Humaitá. Elbrick recebeu a ordem para fechar os olhos e sair do carro.
Imaginando que seria morto, tentou segurar a mão de Virgílio que empunhava o revólver.
Recebeu violenta coronhada na cabeça desferida por Manoel Cyrillo. Sangrando
abundantemente e atordoado pela pancada, foi colocado no chão da Kombi e coberto com uma
manta.
Os
terroristas haviam, entretanto, cometido um erro grosseiro. O motorista Custódio,
previsto para dar o alarme à polícia e divulgar o ocorrido, fora levado ao local do
transbordo e viu a Kombi verde que levaria o embaixador. Esta foi uma das valiosas pistas
que levaram os órgãos de segurança a descobrir, já no dia seguinte, 5 de setembro, o
"aparelho" da Rua Barão de Petrópolis.
Conduzido
ao "aparelho", Elbrick, ferido e ensangüentado, ainda permaneceu cerca de
quatro horas no interior da Kombi, estacionado dentro da garagem do "aparelho",
aguardando o escurecer para ser levado para o interior da casa.
Nesse
cativeiro, já lá estavam "Toledo", Gabeira e Antonio de Freitas Silva
("Baiano", "Pedro"), este contratado como serviçal e para,
futuramente, prestar serviços como mimeografista na preparação da documentação
subversiva.
Imediatamente
após o seqüestro, o efetivo do aparelho foi engrossado com as presenças de Virgílio,
Manoel, Franklin e João Lopes Salgado. No interior da casa, foi montado um esquema de
segurança prevendo-se uma guarda que permaneceria no quarto do embaixador e, do lado de
fora, uma vigilância permanente da rua e dos arredores, realizada a partir da varanda.
Nos contatos pessoais com o embaixador, os terroristas usavam capuzes, para não serem
futuramente reconhecidos.
A
equipe de sete terroristas mantinha-se tensa, aguardando o desdobramento da ação. O
manifesto, deixado no interior do carro diplomático, exigia a sua divulgação através
dos meios de comunicação, como uma das condições para a salvaguarda de Elbrick. Apesar
do trunfo representado pelo embaixador, estavam encurralados no "aparelho" os
mais importantes quadros da ALN e do novo MR-8.
Nessa
primeira noite, os terroristas ouviram, pelas emissoras de rádio, a divulgação do
manifesto. Era sinal de que o governo brasileiro resolvera negociar, preservando a vida do
diplomata americano.
Nessa
mesma noite, elaboraram a seleção dos quinze comunistas a serem libertados. A idéia
inicial do MR-8 de libertar três líderes estudantis fora posteriormente ampliada por
"Toledo" para quinze, o que exigia uma pesquisa para a qual o bando
seqüestrador não estava preparado. Tiveram dificuldades em selecionar nomes de outras
organizações, pois desconheciam a importância dos diversos presos no contexto da
subversão. Ignoravam, inclusive, o verdadeiro nome de Mario Roberto Galhardo Zanconato,
militante da Corrente/MG, colocado na relação com o apelido de "Xuxu".
Paulo
de Tarso Venceslau, após o seqüestro, permaneceu ainda mais um dia no Rio de Janeiro, em
contato com Claudio Torres. Em seguida, deixou seu carro no Rio e, obedecendo ordens de
"Toledo", deslocou-se de avião para São Paulo, a fim de apurar algumas
"quedas" da ALN e de levantar dados sobre a explosão de um Volkswagen na
Avenida da Consolação, na madrugada de 4 de setembro. Retornou no sábado, dia 6, e,
após anunciar a morte de José Wilson Lessa Sabbag ("Nestor") - chefe do Grupo
de Ação do GTA/ALN/SP - e a identificação do japonês morto na explosão como sendo
Ishiro Nagami, o "Charles" ("Toledo" pensava que pudesse ser Takao
Amano, o "Jorge"), voltou a São Paulo em seu próprio carro, que havia ficado
com Claudio Torres.
Na
manhã de 5 de setembro, Gabeira e Cláudio Torres colocaram na urna de donativos da
Igreja do Largo do Machado uma mensagem, informando que divulgariam a lista de quinze
nomes e um bilhete manuscrito de Elbrick para a esposa, Eunice. Uma cópia da mensagem foi
deixada, como alternativa, na urna de donativos da Igreja Nossa Senhora de Copacabana, na
Praça Serzedelo Correia.
Elbrick,
intimidado por seus algozes, suplicava, em seu bilhete, que as autoridades não tentassem
localizá-lo, informando que "a gente que me prendeu está determinada".
Cláudio
Torres, orientado por Gabeira, ligou para o "Jornal do Brasil" e para a
"Última Hora" comunicando onde estavam as duas cópias da mensagem e solicitou
a sua publicação.
No
início da tarde de 5 de setembro, sexta-feira, a relação com os quinze nomes foi
colocada pela dupla Gabeira/Cláudio Torres na caixa de seleções do Mercado Disco do
Leblon. Foi utilizado o expediente de ligar para a "Rádio Jornal do Brasil",
informando o local onde estava a mensagem e pedindo a sua divulgação.
Naquela
altura, os órgãos de segurança, graças ao amadorismo dos terroristas, já haviam
localizado o "aparelho" da Barão de Petrópolis e o mantinham sob vigilância.
Após seguirem Gabeira e Cláudio Torres nas andanças para a colocação das mensagens,
resolveram demonstrar aos seqüestradores que já os tinham sob vigilância e que qualquer
dano causado ao embaixador seria imediatamente reprimido. Dois agentes bateram à porta do
"aparelho" e, sem se preocuparem em disfarçar suas intenções, fizeram
perguntas sobre os moradores da casa e outros detalhes típicos de uma investigação.
Gabeira, esforçando-se em aparentar naturalidade, respondeu, de forma pouco convincente,
as perguntas dos policiais. Enquanto isso, dentro do "aparelho", os terroristas,
assustados, preparavam-se para fazer frente a uma ação que não haviam previsto.
Virgílio correu para o quarto de Elbrick e, colocando-o sentado no chão, permaneceu com
o revólver apontado para a cabeça do apavorado embaixador. O comandante
"Breno", justificando o conceito de "desassombrado revolucionário",
tomara a iniciativa e queria ter o privilégio de eliminar o "representante do
imperialismo".
Para
alívio dos terroristas, os policiais retiraram-se. A vigilância foi intensificada e, a
partir daquele momento até altas horas da madrugada, o tempo foi consumido em discussões
para decidir qual a atitude a tomar. Chegaram à conclusão de que deveriam permanecer no
"aparelho" e prosseguir com o planejamento inicial. Enquanto mantivessem Elbrick
vivo teriam chances de escapar.
O
dia de sábado foi de expectativa. O governo brasileiro, em respeito à vida de um
representante diplomático estrangeiro, já havia aceitado as condições dos terroristas.
O México, um dos países propostos, havia concordado em receber os presos políticos.
Às
1730h de 6 de setembro, um avião Hércules C-130 da FAB, comandado pelo major Egon
Reinisch, decolou da Base Aérea do Galeão para levar os primeiros quinze terroristas
banidos do território nacional: treze embarcaram no Rio (Agonalto Pacheco da Silva,
Flávio Aristides de Freitas Tavares, Ivens Marchetti de Monte Lima, João Leonardo da
Silva Rocha, José Dirceu de Oliveira e Silva, José Ibraim, Luiz Gonzaga Travassos da
Rosa, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Onofre Pinto, Ricardo Vilas Boas Sá Rego, Ricardo
Zaratini Filho, Rolando Fratti e Vladimir Gracindo Soares Palmeira)
e
dois (Gregório Bezerra e Mario Roberto Galhardo Zanconato), em escala no Recife.
Por pouco, o plano do governo, de preservar a vida do embaixador, ia por água
abaixo. Tropas da Brigada Pára-quedista, comandadas pelo coronel Dickson Grael, tomaram a
Base Aérea para impedir a saída do avião. Ao verificarem que ele já havia decolado,
ocuparam, às 2230h, a Rádio Nacional, e lançaram ao ar a seguinte mensagem:
"Atenção para um comunicado à nação
brasileira:
A tropa de pára-quedistas e outras tropas, insurgidas contra a decisão da Junta
Governamental, de fazer a entrega de presos condenados pela Justiça, numa demonstração
de fraqueza e à revelia das Forças Armadas - lança - nesse momento, uma proclamação
ao povo brasileiro de repúdio a tal medida impatriótica.
Conclamamos à união e tomada de consciência de que existe, em nosso país, declarada
guerra interna revolucionária de comunistas, contra a qual iniciamos, neste momento,
ações militares de repressão.
Para o cumprimento desta determinação patriótica, estamos dispostos ao mais alto
sacrifício.
Em nome de Deus.
Brasil acima de tudo." |
Na manhã
de 7 de setembro, domingo, foi colocada por Cláudio Torres no monumento em frente à
empresa Manchete, na Praia do Russel, a terceira e última mensagem. Os seqüestradores
anunciavam o conhecimento da chegada dos quinze subversivos no México e aguardavam apenas
uma autenticação, previamente combinada, para libertar o embaixador.
O
"aparelho" estava cercado. A vida do seqüestrado valia, então, a vida dos
seqüestradores. Os terroristas resolveram contrabalançar o vazio das ruas de um domingo
e feriado com a confusão da saída do jogo Fluminense x Cruzeiro, no Maracanã, para
libertar o embaixador.
Elbrick
foi colocado vendado num Volks dirigido por Cláudio Torres, tendo Virgílio a guardá-lo.
Em outro Volks, fazendo a cobertura, deslocaram-se Cid e Manoel.
Helena
Bocayuva Khair já havia auxiliado Gabeira a retirar do "aparelho" os dirigentes
"Toledo", Franklin e João Lopes Salgado. O "Baiano" também já tinha
abandonado o aparelho auxiliado por Helena, tendo sido guardado num outro
"aparelho", em São Cristóvão.
Por
volta das 1830h, os terroristas trancaram o "aparelho" e iniciaram o
deslocamento acompanhados por uma viatura dos órgãos de segurança, cujos integrantes
tinham ordens de não intervir. No congestionado trânsito do término do jogo do
Maracanã, os terroristas conseguiram distanciar-se e foram perdidos pela viatura.
Elbrick
foi abandonado na Rua Eduardo Ramos, próxima do Largo da Segunda Feira, na Tijuca, com
ordem de permanecer 15 minutos no local, antes de procurar auxílio. O amedrontado
embaixador cumpriu à risca as ordens dos terroristas. Após transcorrido o prazo, tomou
um táxi e retornou à sua residência.
Terminava,
assim, resguardada a integridade do embaixador, o episódio que serviria de modelo para o
seqüestro de mais 3 diplomatas. A exaltada ação subversiva, considerada uma vitória
pelas esquerdas, proporcionou, em razão dos erros primários no planejamento e na
execução, condições para que fossem desferidos duros golpes na ALN e no MR-8, que
culminariam com a "queda" de Marighella em novembro de 1969, em São Paulo.
F. DUMONT
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