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LOGORREIA, O MAL DE LULA
Claudio Lessa
Demorou, mas o diagnóstico foi feito. Você sabe como é, a ciência tem
dessas coisas. Às vezes, o(s) sintoma(s) é(são) claro(s) como água, mas os
analistas se perdem, os médicos se confundem, os pesquisadores se perdem num
detalhe, os profissionais certos não são consultados. Além dos mais de vinte
anos de uma atuação errática, onde não se concentrou na definição dos
sintomas, das causas, e por isso mesmo não se podia chegar a um diagnóstico,
o paciente circulou livremente. Só depois de sete anos de mandato, a
patologia começou a ser examinada mais de perto. Ele se colocou debaixo do
microscópio, por assim dizer. A partir daí, uma detida análise foi
inevitável.
O diagnóstico é preciso, insofismável: logorreia. Além da caracterização
pejorativa – a da profusão de frases sem sentido e/ou inúteis, de acordo com
o dicionário Houaiss, a logorreia é uma psicopatologia, onde o enfermo tem
uma “compulsão para falar, loquacidade exagerada que se nota em determinados
casos de neurose e psicose, como se o paciente, assim, quisesse dar vazão ao
grande número de idéias que passam por sua cabeça.” A palavra é
dicionarizada desde 1873 – logorrhea – o que dá a entender que este é um
problema antigo, e de difícil diagnóstico, se não houver um esforço
concentrado no sentido de identificar o que se passa.
No caso em tela (para usar uma velha expressão que vem bem a calhar), a
confirmação do diagnóstico ocorreu imediatamente após uma entrevista do
paciente ao jornal Folha de São Paulo, esta semana. Os espasmos logorreicos
do paciente incluíram frases como “Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas
tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria que chamar Judas para
fazer coalizão.” A manutenção de José Sarney na presidência do Senado é “uma
questão de segurança institucional.” O paciente, ainda em espasmos
logorreicos, declarou que “a imprensa tem que informar, e não fiscalizar o
poder.”
Feito o diagnóstico preciso – afinal, o paciente não é qualquer um, o que
ele diz causa impacto considerável sobre a opinião pública – passou-se à
fase da busca de motivos para tal distúrbio. Por que o paciente fala o que
fala? A primeira e óbvia tentativa foi examinar as origens do paciente. Não,
as origens dele são exatamente idênticas às de milhões de brasileiros
sofridos que, nem por isso – o sofrimento diuturno – se tornaram pessoas
amorais, sem princípios, sem apreço por qualquer outra coisa que não seja o
poder.
A segunda questão que surgiu foi... “E por que ninguém se insurge com
veemência suficiente quando o paciente é acometido desses ataques de
logorreia – no seu caso, uma doença crônica?” A primeira e óbvia
alternativa, pena, também foi descartada. A paciência do público com um
coitadinho – qualquer coitadinho – tem limites. A segunda opção, cansaço,
foi considerada mais consistente. O cansaço (em duas vertentes) da opinião
pública com a sucessão de governantes safados e com o fato de que
praticamente ninguém busca fazer a coisa certa abriu a porta para que o
paciente seguisse adiante, recusando tratamento e agindo com escárnio diante
daqueles (a minoria) que se preocupam com os destinos do País.
Os pesquisadores, ao fazerem o diagnóstico, também tentaram entender
outros ângulos dessa aceitação incomum, por parte da opinião pública, de uma
pessoa tão enferma – note bem, o paciente não exibe surtos de imoralidade,
mas sim de amoralidade, quase uma psicopatia. Para isso, foi necessário
reunir sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e outros, além dos
psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e criminologistas que se
debruçavam sobre o caso há algum tempo.
Chegou-se à conclusão de que o paciente é um fruto exclusivo de uma
sociedade minada pela Síndrome da Subserviência, um mal enraizado no País
desde os tempos do Brasil-Colônia. Não interessa quem esteja no poder, o
poderoso está sempre certo. Questionar o poderoso é algo inquestionável,
sempre perigoso, muitas vezes letal. Desde que sobre alguma coisa para o
resto, estará tudo bem, todos baterão palmas – até mesmo para o “cartesiano
raciocínio político” eivado de amoralidade de um apedeuta logorreico.