Ternuma-Bsb
DEMOCRACIA REPRESENTATIVA?
Ternuma Regional Brasília
General de Exército ALM de Paiva Chaves
CRÕNICA 22 25 Out 2009
Não faltam motivos para o questionamento.
A CPI da Petrobrás, votada no Congresso há meses, até hoje não se instalou.
Argumentam os parlamentares governistas e o próprio chefe do Executivo que
seu objetivo é político, pretendendo a oposição valer-se dela para atacar o
Governo. Mas, se reuniu o quorum regimental e foi aprovada, não há
justificativa para ser postergado indefinidamente seu funcionamento. Até
porque foi votada em razão de indícios de malversação de recursos, de
apadrinhamentos escusos, de patrocínios favorecendo o partido situacionista.
É mister esclarecê-los devidamente, para que não pairem dúvidas sobre a
administração ilibada de nossa maior empresa, mormente quando sua expressão
cresce aceleradamente com a descoberta dos depósitos do pré-sal.
Situação similar ameaça o funcionamento da CPI do MST. Enquanto na primeira
o quorum foi obtido pelo cochilo dos líderes governistas, nesta as manobras
de pressão obtiveram inicialmente a retirada de quase cinqüenta assinaturas
e inviabilizaram a votação. A invasão de uma propriedade produtora de
laranjas, com derrubada de milhares de laranjeiras por lâmina de trator,
além de saques generalizados de moradias e destruição de máquinas, tudo
documentado em vídeo e exposto à opinião pública, motivou novo requerimento
de instalação. A barbárie praticada falou mais alto aos parlamentares
tementes de perda de votos nas próximas eleições e o quorum foi alcançado.
Ainda é cedo para dizer quando será instalada, mas os situacionistas
prometem esvaziá-la.
A investigação sobre as origens dos recursos que alimentam o MST é ainda
mais impositiva do que sobre a administração da Petrobrás. O banditismo de
suas ações é financiado por recursos públicos alocados a ONGs com
justificativas insólitas. Ao contrário de subsidiar o ensino e outras
atividades sociais a acampamentos dos sem-terra, pagam os deslocamentos de
centenas ou milhares de acampados para invasão de propriedades, com a
leniência da Justiça, que diz não haver como processar um movimento que não
tem registro jurídico. A propriedade privada fica à mercê dos invasores, que
a depredam enquanto é aguardada a reintegração de posse. Os crimes cometidos
contra pessoas físicas e o patrimônio ficam sem solução, porque não há a
quem acusar. Por outro lado, quem defende os bens com seguranças armados
incorre em ação judicial. São fatos que se repetem há mais de uma década,
com a complacência de governos que se sucedem, teimando em ignorar a
violência e cortejando as simpatias do movimento. É um quisto que cresce em
número e ousadia. Tende a tornar-se uma ameaça incontrolável e irreversível
à normalidade institucional.
A taxação de 2% de IOF em investimentos estrangeiros na Bovespa surpreendeu
o público. A justificativa oficial foi a de sustar a desvalorização do dólar
frente ao real. Especialistas em economia se dividem entre combatê-a e
apóia-la. Enquanto o Banco Central sistematicamente ausculta opiniões de
fontes abalizadas antes de tomar decisão sobre a taxa Selic, o Ministério da
Fazenda estabeleceu o IOF sem ouvir segmentos capazes de projetar as
conseqüências.
O périplo continuado do Chefe do Executivo, acompanhado de sua candidata,
ministros e políticos, a pretexto de inspecionar obras do PAC, vem sendo
severamente criticado como campanha eleitoral fora de época. Recebeu
inclusive a censura do insuspeito Presidente do STF.
Os quatro temas, abordados com freqüência pela mídia, dão muito a pensar.
Especialmente porque, do outro lado de nossas fronteiras, sucedem-se
acontecimentos políticos que põem em perigo a vida democrática. São exemplos
Bolívia, Equador, Nicarágua, Honduras, os três primeiros valendo-se de
esmagadora maioria congressista em apoio aos governos socialistas instalados
e o último condenado por organismos internacionais porque seus Legislativo e
Judiciário destituíram, por violação da Constituição, o presidente em
exercício. O mais gritante é a Venezuela, em que seu Presidente, com domínio
absoluto sobre os outros poderes, acaba de criar milícias populares
"bolivarianas", idênticas ao modelo nazista, para submeter empresas e
população a seus desígnios.
O sentimento resultante da análise de todos os fatos citados, num quadro
nacional em que o Presidente mantém alto índice de aprovação popular e
internacional, além de folgada maioria no Congresso, é o de que cresce aqui
a tendência para o autoritarismo. Sufoca as vozes oposicionistas nas
comissões parlamentares, ignora a colaboração das classes empresariais ao
instituir um imposto que poderá trazer prejuízos incontornáveis à economia
como um todo, dá mau exemplo de agressão à legislação eleitoral em campanha
para candidata à sucessão. E pior, cerceia a investigação que poderia levar
à asfixia financeira um movimento popular revolucionário cuja doutrina,
abertamente propalada, é a
derrocada das instituições democráticas.
Em síntese, é de temer que, influenciados por modelos de vizinhos, embalados
pela aceitação popular e pela maioria parlamentar, estejamos a caminhar e
regredir, de uma democracia representativa, para uma "democracia
autoritária".