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O flautista do agreste
Para alguns, a recente caravana eleitoral ao rio São Francisco foi uma oportunidade para inflar ainda mais o ego do nosso guia, doravante alcunhado D. Pedro III.
Foi uma visita ao curral. O gado continua o mesmo, ou melhor está mais embevecido e fanatizado.
Tentamos comparar o futuro D. Pedro III, com alguma figura folclórica que pudesse representá-lo com perfeição, tal é o seu charme e a sua desfaçatez, mas faltou-nos sagacidade.
Canhestramente, buscamos imaginá-lo como um prestidigitador, um hipócrita capaz de, diariamente, tirar da cartola cobras, lagartos e ratos; ou como um travesso e narcisita duende hábil para atrair com engodos e bazófias um séquito de atarantados energúmenos.
Poderiamos compará-lo a um indiano encantador de serpentes, que com sua flautinha hipnotiza as mais venenosas e mortíferas cobras, como a célebre naja, levando-a, docilmente, a um estado de estupor que desagua na obediência e na subserviência. Tal qual o letal réptil, os povos das barrancas do São Francisco sucumbem ao seu traquejo nordestino.
A figura não foi apropriada. O zé povinho não pode ser comparado a qualquer animal com um pingo de capacidade para voltar-se contra os seus inimigos, muito menos com a bravia naja.
Assim, olhamos para o passado, e chegamos à cidade de Hamelin na Alemanha, notabilizada em conto dos irmãos Grimm, que narra um desatre lá acontecido em 1284.
A cidade estava infestada de ratos.
Eis que chega um homem, um messias, que se intitula “caçador de ratos” e se oferece, mediante régia paga, em resolver o problema.
Combinado o pagamento, o homem pega sua flauta e começa a tocar. As ratazanas, magnetizadas, seguem o flautista e sua maviosa música.
Enebriadas acompanham, abestalhadamente, o seu guia. Marcham em transe pelas ruas, trilhas, ravinas até às margens do rio Weser.
Estupidificada a rataria lança-se prazerosa nas águas revoltas do rio.
Acabaram-se os ratos. Mas a estória continua e contém trágicos finalmentes.
Para nós, brasileiros, talvez o importante seja admitir que estamos diante de uma réplica nativa do flautista de Hamelin. Tal qual ratos, rumamos para o rio das tormentas, alegremente, satisfeitos em direção ao caos. E gostamos, aplaudimos.
No conto, a população da cidade recusou-se a pagar o combinado, ao que o flautista para vingar-se, com sua flauta enfeitiçou as crianças da cidade e levou-as para uma caverna, onde permaneceram trancadas para o desespero dos cidadãos de Hamelin.
Nesta estória, na atualidade, reconhecemos o flautista. Quanto ao resto, podemos escolher ou somos os ratos ou as crianças ou os cidadãos. A escolha não importa, pois em todos os casos, ratos, crianças ou cidadãos, tudo indica que entraremos por um esplendoroso cano.
O populacho, tal qual os ratos, marcha com a ingenuidade dos imbecilizados para alhures. As crianças, o nosso futuro, ficarão trancafiadas nos grotões da ignorância, e nós, cidadãos, lamentaremos o dia em que ouvimos os flauteios do flautista do agreste, e nada fizemos para expurgá-lo de nossa cidade.
Brasilia, DF, 19 de outubro de 2009
Um surdo há muito tempo