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Vida dura essa de escriba...

Ternuma Regional Brasília

Por Paulo Carvalho Espíndola, Cel reformado

 

            Já fui criativo e produtivo nas matérias que escrevia para externar minhas opiniões ou para atender demandas do grupo político a que ainda pertenço. 

            Tempos bons. Os assuntos que eu enfocava tinham conteúdo político e permitiam-me um engajamento ideológico puro e sincero. Meus embates encerravam reações contra idéias e ações de pessoas e organizações que intentavam contra a democracia. Ainda hoje intentam, mas sob outras motivações, infelizmente pútridas. 

            Hoje, escrever o quê? Falar sobre escândalos, sobre corrupção desenfreada, sobre o descaramento dessa máfia política, sobre o cinismo que entorpece a consciência de quem assiste a tanta sujeira? Confesso que perdi a capacidade de me indignar. Se reajo e acuso agora algum produtor de lama, horas depois lama mais fétida aparece e o meu clamor cai no vazio. 

            Outro dia, conversei com um amigo jornalista e ele me disse mais ou menos o seguinte:

            - “Amigo Espíndola, as redações da imprensa estão à deriva. Os redatores políticos não conseguem acompanhar as mazelas do dia-a-dia. Mal têm conhecimento de um delito político ou moral, deparam-se com outro. Não há tempo de produzir uma crítica séria de interesse da sociedade. Há muitos Sarneys, Collors e Dilmas. A imundície é norma consagrada. Não temos mais faro para distinguir o que fede mais. Enquanto isso, os repórteres não aguentam a azáfama de cobrir a podridão.Eles precisam dormir, ter descanso e tratar cada coisa de uma vez, mas o tsunami da lama não lhes dá trégua. Quando alguma fcoisa aparece para respaldar uma crítica contundente, lá vem Lula para inebriar multidões e exaltar a retidão moral de seus cúmplices e “aliados”. Os hospitais públicos estão repletos de gente morrendo nos corredores. A segurança pública é semelhante à da Guiné Bissau, entretanto, adianta denunciar? A gente brasileira prefere acompanhar as novelas da Globo do que ver e interpretar as notícias que desnudam o descalabro. Vamos votar no ano que vem. Vai mudar o quê? Talvez a troca de um sapo barbudo por outro de saias. Meu voto, outra vez, será anulado”. 

            Fiquei impressionado, mas não me surpreendi. Como disse antes, minha capacidade de indignação está comprometida.  

Hoje, só me revolto se alguém tentar me violentar direta e pessoalmente. Caradurismo do Estado não me revolta mais. É triste. 

            Vida de escriba é danada. Convenci-me disso. 

            Admiro uns poucos que ainda têm motivação para escrever. 

            Todavia, este não será o meu epitáfio. Não quero que se lembrem de mim como alguém que se foi por falta de reação. 

            Penso que é bom eu procurar outros jornalistas, amigos ou não, que, desocupados, gastem o seu tempo em procurar ossadas do Araguaia ou justificar o seu ócio remunerado com ataques à “ditadura” de 1964. 

            Quem sabe, assim eu não volte a ser o escriba que já fui, para o meu gáudio e para quem escrevi com pureza e dedicação.