Ternuma-Bsb
CLANDESTINOS A BORDO
Ternuma Regional Brasília
Gen. Bda RI Valmir Fonseca Azevedo Pereira
Uma tragédia aérea abateu – se sobre diversos países com a terrível queda do
Airbus que voava do Rio de Janeiro para Paris, no dia 31 de maio último.
Os dados de vôo do Airbus AF 447 informam que foram vitimados os 228 passageiros
e tripulantes. Uma catástrofe.
O terrível infausto ocorrido na madrugada de 31 para 01 de junho cobriu de luto,
em particular, o Brasil e a França, origem natal da maioria dos passageiros. De
início, pela falta de maiores ligações com a aeronave sinistrada, enormes eram
as dúvidas quanto ao local e as causas da tragédia. Foi no vasto Oceano
Atlântico.
Aos poucos, contudo, o mar iniciou a devolver o que não lhe pertencia. E os
corpos, destroços e bagagens começaram a emergir.
Famílias desesperadas, enlutadas clamam pelo que restou de seus entes queridos,
para prestar- lhes a derradeira homenagem, o último e sentido adeus.
Foram 228 almas, que esperamos estejam no regaço do Criador.
Entretanto, ao que tudo indica, com a intensificação das buscas, outros corpos
foram sendo resgatados. Estranho foi o caso de duas senhoras, que foram
encontradas boiando, de mãos dadas, praticamente abraçadas, num último suspiro.
Feliz e milagrosamente não sofreram as ações do tempo, nem da água salgada, nem
das intempéries, nem dos temíveis tubarões. Intactas estavam suas faces e,
poderiam, segundo os encarregados do resgate, facilmente serem reconhecidas
pelos seus parentes e amigos.
Ampla divulgação, retratos falados, caracteristicas pessoais, sinais corporais e
nada.
Nenhuma autoridade nacional, do executivo, do legislativo e do judiciário,
indagados, exaustivamente, demonstrou o menor conhecimento das vítimas. “Nunca
as vi nem mais gorda, nem mais magra”, foi a declaração geral.
Talvez a caixa preta, no futuro, nos revele o que aquelas pobres vítimas, no seu
derradeiro estertor, conversaram.
Intensas investigações para elucidar o mistério comprovaram que elas não
constavam da relação de passageiros. Logo, concluíram que eram clandestinas.
De início, uma tremenda incógnita. Pessoas desconhecidas. Foram encontradas com
trajes pobres, mas dignos. Não aparentavam ter posses, nem jóias. Mistério.
Quem seriam? Só mesmo o espaçoso, precipitado e exibicionista Ministro da
Defesa, com sua vareta fosfórica a apontar num mapa, pontos ignotos no Oceano
Atlantico, arriscou um palpite em rede mundial, alegando, peremptóriamente, que
poderiam ser duas senhoras, que tão logo ouviram falar na queda da aeronave,
saíram nadando da costa da África do Sul para auxiliar no resgate das vítimas. O
mundo ficou boquiaberto. Muita gente, de início, acreditou.
Finalmente, na 2ª feira, procuraram as autoridades uma simpática senhora, mas em
deplorável estado, que apresentou –se como Dignidade da Pátria, acompanhada por
um encarquilhado senhor que identificou – se como Caráter Nacional, que
preocupados com o desaparecimento de suas amigas a Justiça Enxovalhada e a
Vergonha Nacional, julgaram pelos indícios noticiados na mídia, que as
desconhecidas vítimas, talvez pudessem ser as suas queridas amigas.
A Justiça e a Vergonha, conforme depoimento de sua amiga a Senhora Dignidade da
Pátria e de seu primo o Senhor Caráter Nacional, de há muito pretendiam procurar
outros ares; o Brasil, diziam, “era um covil de valhacoutos” e estava a cada dia
mais insuportável, e o boato do terceiro mandato fora a gota d’ água. Por isso,
assim como a Soberania Nacional, irmã da senhora Vergonha, que fugira para a
Sibéria, depois da decisão sobre a Reserva Raposa Serra do Sol, as duas pobres
almas decidiram seguir alhures, custasse o que custasse.
Assim, sem dinheiro, pungado pelo desgoverno através de pesados impostos,
aposentadas, sem lenço e poucos documentos, embarcaram sorrateiramente, no porão
de carga do Airbus. Foi o que testemunharam, posteriormente, a Honestidade
Perdida e a Honra Pessoal, também amigas das vítimas e suas diletas companheiras
no clube recreativo da terceira idade “Brasil acima de Tudo”, falida entidade
onde, persistentemente, ainda se reúnem uns pingados membros daquela agremiação,
denominados eufemisticamente, “os nacionalistas”.
Procurados pela imprensa, os parentes das duas indigitadas abriram mão de
qualquer indenização e alegaram que, se houvesse, fosse doada para a “Bolsa –
Terrorismo”, fundo destinado a amparar os terroristas que venham a necessitar de
cuidados psicológicos e psiquiátricos, caso algum dia venham a ter problemas de
consciência, etc.
Lamentavelmente, nada mais foi dito.
Desconhecem - se, o dia do enterro, cemitério, missas de sétimo dia e outras
missas. Somente poucas pessoas, as que possuíam incondicional respeito e
admiração pelas dignas anciãs, tomaram conhecimento das datas e locais, para
prestarem, em sigilo, as suas respeitosas e sentidas despedidas àquelas saudosas
e sempre lembradas personagens, que, ao que parece, um dia fizeram parte do
imaginário nacional.
Felizmente, eu fui informado.
Brasília, DF, 08 de Junho de 2009